segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Casos mal resolvidos

Andava tão ocupada, tão virada para mim própria, tao absorta nas palavras, que não vi…

As minhas preocupações eram a ponte a saltar, o degrau a subir, como ultrapassar este ou aquele obstaculozinho. Uns maiores que os outros, mas eu, qual super mario, sentia-me capaz de os transpor a todos um a um, até chegar ao tesouro perdido. Perdia algumas vidas, quando saltava cedo demais, mas sempre ia ganhando uma outra moedinha, munida, pensava eu, de super poderes, que nível a nível me fariam chegar à final.

Tão absorta que estava nesssas pequenas conquistas e nesses saltinhos, na corrida contra o tempo, que só depois, de repente, percebi. Não era um tesouro escondido o grande desafio, não era pincesa raptada o objectivo final, não era o super mario, este jogo que estava jogar. À minha frentre estava uma grande muralha. Tão grande como a da China. Cercava-te a ti e os meus super poderes não chegam para transpô-la. Durante muito tempo, tive uma igualzinha e por isso sei, de cor e salteado, o que é preciso para destruí-la e deixar que outros nos acerquem.



Tal como tu, esperei anos, que alguém viesse, munido de canhões e munições para destruí-la. Mas todos nela esbarravam, sem que esta estremecesse um milimetro que fosse. E durante anos, a mesma crescia e fortificava-se, com as memórias, as recordações, as fantasias. Com que foi e já não volta. E eu cimentava cada tijolo, com os meus sentimentos, com as minhas fantasias, com os planos feitos e totalmente gorados. Redimensionava toda a realidade, romanceava todo o meu passado., a um simples contacto daquele que havia originado tamanho obstáculo. Só há pouco percebi, que esse poder está em nós próprios. Só há pouco que a muralha é feita de medos e não de sonhos. A origem é a mesma, as tais recordações, os tais planos gorados, mas o que a mantém não é a vontade de ficar, mas sim o medo de perder.



Para isso não tenho poderes. Não há crédito no jogo, palavra no texto ou momento proporcionado que cure esse mal.



Só depende de ti!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Delicioso!!!

CARTA A OPHÉLIA QUEIROZ – 25 DE SETEMBRO DE 1929


Exma. Senhora D. Ophélia Queiroz:

Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª — considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) — que V. Ex. ª está proibida de:
(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.

Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na imagem mental, que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.

Cumprimenta V. Ex. ª

Álvaro de Campos

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

"Trago-te debaixo da minha pele. Apanhaste-me desprevenido. Atingiste-me o coração, pecado meu. E agora é tarde para tudo senão para escrever. O teu coração tão branco a bater perto de mim. Embora o não ouvisse sei que estava lá".

Pedro Paixão, in "Ladrão de fogo"

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Autocarro



Hoje em dia não se gosta, “fica-se”, como dizem os brasileiros. Não há borboletas no estomago, nem nó na garganta. Não há a voz que treme no telefonema que ansiámos e temos medo de estragar. Não há a mensagem que hesitamos se enviamos ou não, se pomos a virgula ou não, se a palavra é a correcta ou não. Não há nada a perder. Não há passos em falso, não interessa o caminho, não há precipicio. Para “ficar”, há muitos! Se perder este autocarro, em apenas 5 minutinhos (ás vezes mais, que a Carris atrasa-se muito) chegará o próximo.


Hoje, quando se gosta de alguém, mesmo que seja só assim um bocadinho, instala-se o pânico. Instala-se o pânico dos intervenientes, o rapaz e a rapariga, e de todos aqueles que estão à sua volta.


O rapaz assusta-se “vê lá que ainda te apaixonas”, a rapariga treme “ai que não me posso apaixonar, não posso mostrar, não posso ansiar, ai que ele só quer “ficar””. Os outros preocupam-se “Não vás por aí, que isso por aí magoa! Faz como nós! Até podes casar, até podes ter filhos, gostar é que não!”. “E não te deixes pisar, não aceites migalhinhas, não sintas! Sê um robot! Espera 3 dias para enviar mensagem e a segunda só envias, 2 dias depois da resposta. Calcula tudo milimetricamente, não ouses sentir nada, nem sair do carrilho”. E lá vamos todos, uns atrás dos outros, como uma manada, nesse caminhozinho sem desvios.


Aquele que, inevitavelmente, sente as borboletas no estomago, passa a ser o frágil, o vulnerável, o retrógado. Aquele que esquece os milimetros dos seus passos, que quebra todas as regras, passa a ser fraco, pouco inteligente e, imagine-se só, perde a frieza e a racionalidade.


A excepção confirma a regra e lá se permite uma borboleta ou outra, mas só uma, que o estomago é fraco e tem que se aguentar ao McDonalds desta vida. E com prazo. A borboleta deve ficar no casulo, pelo menos, um ano! Borboleta depois de um único encontro, de todo! Nem que seja pela pessoa mais interessante do mundo, nem que seja o encontro mais giro do século! Venham Brad Pitts ou Kevin Costners, borboletas só no auge da loucura e, sobretudo, depois de se ter a certeza, certezinha, de que se é correspondido!

- Não sabes falar deste assunto que a mim tanto me interessa, mas que afinal nem ao menino Jesus interessa, vai mas é à tua vida!


- Não queres ver o mesmo filme que eu, desampara-me a loja!
- Não ouves esta música, não me serves para nada!
- Vou mas é esperar pelo próximo autocarro já, antes que o perca e a Carris entre em greve!

Eu sinto borboletas no estomago. Tenho um nó na garganta, só por isso. Falo demais para o tentar desfazer. Deixei de ser moderna, despreendida, porreira….
Não quero outro autocarro, quero este! Quero conhecer os seus bancos um a um e retirar as borboletas do casulo. Quero olhar por todas as suas janelas e quebrá-las, em caso de emergência. Este sim, é confortável. Este sim, tem Ar Condicionado, piso rebatido, música ambiente.
Mas vem o pica e pergunta: “ A menina tem passe?”. E eu não tenho. Ainda não mo deste. Com borboletas, não tenho direito… E o bilhete não dá para as 7 colinas, só permite a viagem na zona 1.

E assim me forçam a sair e a pagar multa!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Eu e as putas


Agora tenho esta mania. Chamar puta a tudo! Falar da puta da vida, tem muito mais impacto e soa a muito mais desgraça ou descontamento ou lá o que seja, do que falar apenas da porcaria da vidinha!

Lesse a minha avó os meus textos e levaria já com a lengalenga habitual "Ai filha, que uma menina não fala assim!" e, aproveitando a deixa, por aí continuaria, "Ai filha, que uma menina não se senta assim, não anda assim, não se veste assim. Uma menina deveria ser prendada, aprender a lida da casa e, sobretudo, aprender a bordar. Já que foi assim que a bela-adormecida se picou, para adormecer durante 100 anos e encontrar o seu principe encantado". Qual carreira, qual viver sozinha, qual sexo antes do casamento? Eu devia era estar quietinha, no baile, à espera que o rapaz de boas familias me convidasse para dançar.

Depois vêm as minhas amigas. Como sabes, está na nossa natureza debater qualquer assunto com as nossas amigas mais intimas. Debatemos tudo, tudinho, desde do gajo giro que se mudou para o nosso lado, como os sapatos pirosos da pirosa da nova namorada do nosso ex. Debatemo-lo como se de um assunto de estado se tratasse. Como se disso dependesse o mundo e a sua camada do ozono.Com estas, a lengalenga não é assim tão diferente, "não digas puta, não digas merda, não faças isto, não escrevas aquilo. Não é com vinagre que se apanham moscas".
Dizem-me para não te escrever, para não te ligar, para não te atormentar. No fundo, dizem-me o mesmo que a minha avó, que eu deveria era estar no baile, quietinha, à espera que me convidasses para dançar!

Mas, bolas, eu não sei ser assim... Não consigo ficar de braços cruzados. E esta é, neste momento, a única arma que tenho, escrever-te. São tantas as distracções e tarefas na tua vida, que sinto que tenho que captar e manter a tua atenção, de alguma forma.
Não sei cantar, não sei dançar, não sou nenhuma estampa. Conseguisse eu e já haveria por aí noticias sobre a miuda que andava a fazer o pino na tua rua.

Arrependo-me dos ultimos mails que te mandei. Leio-os e fico orgulhosa da minha escrita, porque que acho que, aquele da desistente, está mesmo muito bem escrito. Leio-os e finjo ficar orgulhosa, finjo que tenho personalidade. Personalidade, o tanas! Ate a posso ter, mas tudo o que ali está não é mais que a puta da minha insegurança! Gostava de escrever o texto mágico que o apagasse, gostava de te dizer que aquela não sou eu e que tenho uma boa desculpa para o devaneio emocional. E até tenho! E tu conhece-la bem. Volto a reler e penso que, pelo menos, ficas já a saber o que sou, insegura! Que comigo nao há supresas...
Mas sinto que o mostrei com demasiado enfase, porque acredites ou não, eu até tenho muitos outros lados e bem simpáticos. Apesar da porcaria do mail de que me arrependo/não me arrependo, até sou uma miuda porreira... e é essa a parte que te quero mostrar...

Sinto que quebrei as regras do jogo, apesar de não saber conscientemente quais são, nem de que jogo se trata.Tento seguir o conselho das minhas amigas e tento não te escrever mais. Mas são 3h da manhã, tou com os copos e, agora, sinto que não tenho nada a perder.
Amanhã, durante a ressaca vou pensar, "Ai Meu Deus que já deve achar que sou maluca! ai Meu Deus que o homem não tem tempo! Ai Meu Deus que sou tão chata (tb palavra proibida, segundo as minhas amigas)! Ai Meu Deus, a puta da minha insegurança, a puta da minha impulsividade e a puta minha da falta de auto-controlo!". Definitivamente, esta mistura de Deus com putas, não seria aprovada pela minha avó! Que grande sacrilégio o meu!

Também tudo o resto não seria aprovado pelas minhas amigas, grande sacrilegio o meu, voltar a escrever-te!

domingo, 22 de novembro de 2009


Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.


Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.


As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.


Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que sãoRidículas.


Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.


A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.


(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,

São naturalmente

Ridículas.)


Álvaro de Campos, 21/10/1935

sábado, 21 de novembro de 2009

"O curso do verdadeiro amor jamais flui suavemente."
William Shakespeare